
O fenômeno climático El Niño, que se intensificou em 2026, já provoca preocupação entre pesquisadores e autoridades sobre os efeitos que poderá trazer para a Amazônia nos próximos anos. Estudos do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) apontam que a cheia prevista para 2027 pode ser menor do que a média histórica, enquanto a vazante tende a ser mais severa. O motivo está no aquecimento anormal das águas do Pacífico, que chega a até 4 °C acima do esperado e interfere diretamente na formação de nuvens e no regime de chuvas da região.
De acordo com André Martinelli, gerente de hidrologia do SGB no Amazonas, o ponto de atenção está na chamada “cota de partida”, ou seja, o nível máximo atingido durante a cheia. Se esse pico for baixo, os rios não terão volume suficiente para enfrentar a seca seguinte, aumentando os impactos da vazante. Já o pesquisador Renato Senna, do Inpa, explica que a intensidade do El Niño atual pode ser comparada à registrada em 2015, mas com efeitos prolongados semelhantes aos de 2023, o que amplia os riscos de atraso no início da estação chuvosa.
Em Manaus, os sinais já são visíveis: o Rio Negro recuou 10 centímetros em apenas 24 horas, registrando 24,09 metros. Em cenários extremos, a cota pode chegar a 12,92 metros durante a vazante, valor considerado crítico para a capital. Mesmo em estimativas mais moderadas, a descida deve ficar abaixo da média, trazendo prejuízos para comunidades ribeirinhas e atividades econômicas.
No interior, a situação também preocupa. Municípios como Benjamin Constant e São Paulo de Olivença, no Alto Solimões, decretaram emergência devido à escassez de água. A Defesa Civil do Amazonas informou que já iniciou o envio de alimentos, água potável e kits de higiene para apoiar a população afetada.
Esse conjunto de fatores reforça o alerta de especialistas: se as chuvas não se normalizarem até o início de 2027, a região poderá enfrentar uma das mais intensas vazantes da última década, com consequências diretas para a vida das comunidades e para o equilíbrio ambiental da Amazônia.



