
Um estudo publicado na revista científica Nature Sustainability sugere que a criação de proteção legal nas áreas ao redor das terras indígenas pode ser decisiva para conter o avanço do desmatamento e das atividades ilegais na Amazônia. A proposta é estender às terras indígenas o modelo de zonas de amortecimento já adotado em unidades de conservação, como parques nacionais e reservas extrativistas.
Vale do Javari como exemplo
A pesquisa analisou a Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do Amazonas, e identificou uma diferença expressiva entre a conservação da floresta dentro do território demarcado e a degradação registrada em seu entorno.
- Em 2022, o desmatamento em uma faixa de até 200 km ao redor da terra indígena foi 187,5 vezes maior do que o observado dentro da área protegida.
- Apesar da redução nos índices em 2023 e 2024, os níveis seguem superiores aos das décadas anteriores, evidenciando pressões ambientais e fundiárias permanentes.
Proposta dos pesquisadores
- Extensão das zonas de amortecimento: aplicar às terras indígenas o mesmo modelo legal que restringe uso do solo e atividades econômicas próximas às unidades de conservação.
- Fortalecimento da fiscalização: combater ocupação irregular de terras públicas e atividades ilegais como mineração, extração de madeira, pesca predatória, caça comercial e tráfico de animais.
- Proteção de povos isolados: o Vale do Javari abriga a maior concentração conhecida de povos indígenas em isolamento voluntário no mundo, além de cinco povos em contato (Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina).
Vulnerabilidade dos povos indígenas
Os autores destacam que os povos isolados estão entre os mais vulneráveis às invasões, já que não possuem condições de recorrer diretamente às autoridades ou à imprensa. Por isso, defendem que ações de fiscalização sejam priorizadas nas áreas próximas às terras indígenas, onde a pressão pela ocupação irregular tende a crescer.
Colaboração científica
O artigo, intitulado Spiraling frontier threats in Indigenous Amazonia, reúne pesquisadores de instituições brasileiras e internacionais, incluindo o Inpa, o Inpe, universidades estrangeiras e o líder indígena Beto Marubo. A Unifap participa por meio dos professores Alan Cavalcanti da Cunha e Helenilza Ferreira Albuquerque Cunha, coautores do estudo.



